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Sábado, 19 Maio 2012
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Controlo das propriedades de desempenho de argamassas e grouts no estado fresco
Texto de Ana Armada Brás
12 Outubro 11.58   |   
O período em que vivemos, as políticas de desenvolvimento sustentável impõem o cumprimento de metas que visam tornar Portugal mais independente do ponto de vista energético.
A reabilitação de edifícios surge aqui como factor chave, com a criação de programas de incentivo à reabilitação urbana sustentável, onde o Plano Nacional de Acção para a Eficiência Energética estabelece como objectivo que 1 em cada 15 lares obtenham uma classificação energética superior ou igual a B- e que 20% dos edifícios do Estado possuam classificação igual ou superior a B-.
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A aposta na promoção integrada na eficiência energética dos edifícios, garantindo a sustentabilidade ambiental e económica do modelo energético pressupõe, a par da necessidade de instalações e de equipamentos mais eficientes, a utilização de materiais e sistemas de construção mais optimizados, na óptica do desenvolvimento sustentável.
A questão a salientar é que, ao contrário da construção nova, que está devidamente regulamentada, não existem regras bem definidas sobre como deverá ser conduzida uma intervenção de reabilitação e conservação de edifícios. A formação/informação na matéria é ainda reduzida e compete-nos, enquanto profissionais/investigadores na área, reunir e divulgar estas ferramentas.
O projecto de conservação e reabilitação surge como factor que reune as informações que derivam do conhecimento da patologia da construção, do diagnóstico das anomalias detectadas e do estado de conservação do edificado. Como output do projecto pode existir a simples intenção de preservação do construído, a reposição das suas características originais ou até a melhoria das suas características estruturais e não estruturais. No entanto, independentemente do tipo de construção, há que considerar a reversibilidade das intervenções e a compatibilidade entre os materiais existentes e os novos.
Do ponto de vista da eficiência energética, as características exigidas aos revestimentos de paredes são cada vez mais severas, não só a nível do comportamento mecânico, mas também ao nível do comportamento térmico. Tem-se observado, cada vez mais, a aposta em conseguir obter um comportamento melhorado das argamassas pela introdução de novos ou menos correntes materiais na sua constituição. No entanto, a formulação de uma argamassa para reboco com características térmicas implica não só um conhecimento profundo das suas matérias-primas, mas também uma avaliação às diferentes combinações de componentes, de modo a optimizar propriedades pré-definidas.

Injecção
com caldas

As propriedades destas argamassas no estado fresco revelam-se tão importantes quanto as que serão atingidas no seu estado endurecido, na medida em que o seu desempenho global depende a priori de capacidades como o seu espalhamento e trabalhabilidade para serem aplicáveis, o que pode condicionar o seu comportamento futuro.
Numa perspectiva de intervenção de cariz mais estrutural, como é o caso das consolidações de paredes em alvenaria de pedra à custa da injecção de caldas (grouts), a abordagem no desenvolvimento deste tipo de material com vista à sua optimização será obviamente diferente da situação anterior. No entanto, também aqui o controlo das propriedades das caldas no seu estado fresco é importante, podendo comprometer severamente o sucesso da consolidação.
A injecção com caldas é de facto uma das técnicas correntemente utilizadas na consolidação deste tipo de edifícios.
Que solução para composição da calda se deve adoptar? Como controlar a qualidade da calda? Que critério de paragem da injecção a utilizar? São apenas algumas das questões que surgem numa intervenção e que carecem de estudos a montante de modo a solucionar o problema.
Efectivamente, o objectivo desta técnica é aumentar a compacidade da alvenaria, tirando partido do elevado nível de porosidade dos seus materiais, procurando trazer um comportamento monolítico à secção. Deste modo, melhora-se não só a resistência ao corte e à flexão como também à compressão, permitindo que tanto as cargas verticais como as horizontais se distribuam de modo mais uniforme.
A qualidade da consolidação depende quer dos materiais existentes, quer do desempenho geral da calda utilizada, na medida em que este depende da capacidade da calda em penetrar na porosidade aberta da alvenaria. Consequentemente, a reologia das caldas deve ser compreendida e controlada, de modo a que possam ser bombeadas e fluam no meio poroso onde estão a ser injectadas.
A Reologia é a ciência que estuda a deformação e o escoamento da matéria e, portanto, estuda a relação entre força, deformação e tempo, pelo que abrange tudo desde um sólido elástico a um líquido. O termo foi introduzido pelo Prof. Bingham, do colégio de Lafayette, Indiana, EUA, cuja definição foi aceite pela Sociedade Americana de Reologia, aquando da sua constituição em 1929.

Controlo e previsão
do comportamento

Os sistemas cimentícios no estado fresco, como as caldas, as argamassas e até os betões, são suspensões com partículas de várias concentrações, dimensões e formas. Através de técnicas ainda pouco usadas para controlo de qualidade dos materiais cimentícios e previsão do seu comportamento no estado endurecido, a reologia pode ser aplicada com vista à optimização de propriedades destes materiais no estado fresco, como também na selecção correcta dos seus constituintes (como sejam o cimento Portland, a cal hidráulica natural, a dosagem de superplastificante, entre outros), com vista a alcançar o desempenho necessário em estado já endurecido.
A optimização destes materiais por esta via e a sua correcta prescrição em fase de projecto permitem a sua utilização em inúmeras e distintas situações como sejam o desenvolvimento de grouts para consolidação de alvenarias, o desenvolvimento de grouts para encamisamento de pilares ou o desenvolvimento de argamassas com comportamento térmico melhorado.
Assim, atendendo a que, na prática, há um certo empirismo na formulação e avaliação destes materiais, além de que é, ainda, escassa a informação sobre a influência relativa dos vários componentes no seu comportamento reológico, torna-se evidente e necessária a realização e divulgação de estudos de base científica sobre este tema, credibilizando e fundamentando as opções de intervenção.

Ana Armada Brás
Coordenadora da Pós-Graduação em Conservação e Reabilitação do Edificado
Escola Superior de Tecnologia do Barreiro/ Instituto Politécnico de Setúbal
ana.bras@estbarreiro.ips.pt
 

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