Quem teve oportunidade de ler o memorando apresentado pela Troika, rapidamente concluiu que um dos eixos mais abordados é a indisciplina no que toca aos pagamentos. O constante atraso de regularização das dívidas por parte do Estado tem contribuído, em muito, para a actual situação no sector da Construção nacional; Todos sabemos que o prazo legal de pagamento de dois meses raramente é cumprido. Segundo o referido inquérito, a média situa-se nos sete meses.
Este factor afecta as empresas de construção, de fiscalização, de revenda e das próprias empresas fabricantes. Com efeito dominó, a regularização da dívida torna-se num problema muito sério para todos os intervenientes.
É do conhecimento geral que as autarquias sempre fizeram investimentos acima das suas possibilidades, contando com prazos abusivos para a regularização das dívidas. Por outro lado, as empresas aceitavam essa situação, uma vez que a linha de crédito concedida pela Banca assim o permitia. Esta abordagem comportava riscos e, naturalmente, com todas as convulsões socio-económicas actuais, trouxe à tona reais preocupações de tesouraria ou, em muitos casos, da própria sobrevivência das empresas.
Acresce ainda a situação dos juros de mora que se encontram por cumprir. Apesar de legislação existente para este pagamento em termos temporais e quantitativos (taxa fixada a 8%), e que permitiria um reequilíbrio por parte das empresas, a realidade é outra. São diversos os exemplos em que esta taxa serve unicamente como uma medida de pressão para as autarquias pagarem. De facto, ela é negociada se o devedor se comprometer a pagar num determinado espaço temporal. Esta “adaptação” da lei é aplicada no sector da Construção, surgindo como uma medida de desespero, perfeitamente exemplificativa das dificuldades das empresas do sector.
Deparamo-nos, deste modo, com duas vertentes problemáticas:
Vertente da Rentabilidade – Redução de número de obras e, consequentemente da facturação, que não é acompanhada pela redução de custos;
Vertente de Tesouraria – Diminuição dos recebimentos, sem qualquer apoio de linhas de crédito por parte da Banca.
Assim, verifica-se uma maior resistência dos empresários em contratar, seja para aumento de equipa, seja para substituição, por receio de apostar num investimento com reduzido retorno.
No entanto, não quero deixar aqui uma imagem pessimista do sector da Construção. Apesar da actual abordagem dos empresários ser claramente negativa face ao mercado português, o facto é que continua a existir processos de recrutamento de profissionais do sector:
- Continua a haver investimentos na vertente comercial, seja de mercado nacional ou para a exportação.
- Mantém-se a aposta em profissionais qualificados ao nível de Engenharias para as regiões dos PALOP`S, Médio Oriente e, recentemente, Brasil.
- Apesar de um retrocesso na aposta da microgeração, o sector das Renováveis continua a registar uma dinâmica interessante.
O mercado está a dar mostras de maior maturidade. Verifica-se agora uma abordagem mais inteligente ao cliente, uma maior organização, planeamento comercial e de produção para fazer face ao contexto económico. De uma forma orgânica, o sector da Construção está-se a adaptar progressivamente à nova realidade e a procurar profissionais que também saibam fazê-lo.
O paradigma mudou e continua a sofrer mutações. Não há margem para erros e a aposta é sempre para ganhar. Pena é que esta mentalidade resulte apenas porque a alternativa seria fechar a porta.
Marco Arroz
Senior Consultant
HAYS Recruiting experts worldwide











